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Estudos da UFSB e do IFBA vão levantar dados para embasar futuro projeto de dragagem do rio Buranhém

  • Escrito por Heleno Rocha Nazário
  • Publicado: Segunda, 07 de Dezembro de 2020, 16h44
  • Última atualização em Segunda, 07 de Dezembro de 2020, 16h55
  • Acessos: 974

Barco encalhado Buranhem OUT 2017 1Uma série de estudos vai fornecer as informações necessárias para intervenções no rio Buranhém, em Porto Seguro, que apresenta problemas à navegação pela alta quantidade de sedimentos. Os levantamentos serão conduzidos em parceria por docentes, técnicos-administrativos e estudantes da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e ao Instituto Federal de Educação, Ciência eTecnologia da Bahia (IFBA). Os dados vão ajudar a definir necessidades para futuro projeto de dragagem.

Estudar o assoreamento no rio Buranhém vai ajudar tanto a saber as causas quanto a agir para controlar o problema. O coordenador do projeto pela UFSB, professor Marcos Bernardes, vinculado ao Centro de Formação em Ciências Ambientais e que exerce o cargo de decano do Campus Sosígenes Costa, em Porto Seguro, explica que o acúmulo de sedimentos em corpos d’água, ou assoreamento, pode acontecer por causas naturais ou humanas. “Dentre essas últimas, destacam-se a má gestão do uso e ocupação do solo nas bacias hidrográficas, como a retirada indiscriminada da vegetação nativa. Uma das consequências é o transporte excessivo de sedimentos para áreas como os estuários, por exemplo, que são as regiões de encontro entre o rio e o mar”, ensina o pesquisador.

O assoreamento no rio Buranhém restringe a navegação na área, atrapalhando o tráfego por embarcações pesqueiras, de lazer e as balsas de transporte entre a zona urbana da Porto Seguro e distritos como o de Arraial d'Ajuda, dentre outros, e da Marinha do Brasil. Outros problemas devem ser também investigados no levantamento, uma vez que o estuário do rio Buranhém, ou seja, o ponto de encontro das águas do rio com o mar, em Porto Seguro, é utilizado para muitas finalidades. “Não podemos nos esquecer da importância do turismo para Porto Seguro”, pondera o professor Marcos, ressaltando a importância de garantir a navegabilidade. A decisão de dragar precisa considerar outras atividades econômicas que também estão baseadas no estuário: “Sabe-se que são realizadas atividades como a pesca e o extrativismo de ostras e mariscos e, com o estudo, esperamos caracterizar quais são esses organismos e se estão ou não sujeitos à contaminação por metais antes mesmo da dragagem e, se sim, em que nível”, avalia o cientista.

Outra questão que deve ser abordada nos estudos tem a ver com a viabilidade de reutilizar o material a ser dragado em outra localidade ou se precisará ser descartado em local seguro. “Todas essas respostas poderão contribuir para, ao tempo em que se pode economizar recursos financeiros, também contribuir para uma gestão responsável do ambiente”, destaca o professor Marcos Bernardes.

 

Abordagem prévia

Uma reunião realizada em 1º de novembro de 2017 na Delegacia da Capitania dos Portos, em Porto Seguro, conforme o professor Marcos Bernardes, é tida como a primeira participação da UFSB na busca de soluções para o problema. De lá para cá outros encontros entre representantes da universidade, da Marinha do Brasil, do Ministério Público Estadual (MPE), da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Porto Seguro e de empresas concessionárias das balsas, dentre outras instituições, foram aprimorando a abordagem.

No acordo de parceria para pesquisa, desenvolvimento e inovação, que foi celebrado em 2020 entre a UFSB, o município de Porto Seguro e a FAPEX, a universidade elaborará um diagnóstico da situação pré-dragagem do Buranhém. Essa documentação vai embasar a elaboração do instrumento de contratação da obra. Pela variedade de estudos envolvidos, os dados e informações serão indispensáveis para a tomada de decisão pela realização da dragagem, que caberá à entidade responsável pelo empreendimento, em observância à legislação e demais trâmites associados.

O professor Marcos Bernardes afirma que a UFSB poderá participar de estudos complementares futuros, que ainda não fazem parte do acordo atual. Ele destaca a simulação de cenários futuros via modelos computacionais, ferramenta muito útil no processo de licenciamento ambiental; a ampliação dos organismos aquáticos a serem monitorados; o acompanhamento tanto das possíveis alterações no ambiente durante e depois da dragagem, como instrumento de identificação e mensuração dos impactos da obra.

 

Quais estudos serão feitos?

Pluma Buranhem 10 10 2016 2O professor Marcos Bernardes explica que o objetivo do projeto é caracterizar a área sob efeito de assoreamento quanto a aspectos físicos, geológicos, químicos, biológicos e de georreferenciamento. As questões relacionadas aos aspectos físicos, por exemplo, vão mostrar a dinâmica dos elementos na área: “Em outras palavras, buscamos estimar propriedades físicas como características das correntes e como interagem com o transporte de sedimentos, além da batimetria da região, popularmente entendida como ‘as profundidades’ em cada ponto do estuário”, diz.

Em relação ao ponto de vista geológico, os pesquisadores vão caracterizar o solo e subsolo. Isso é importante para saber quais técnicas de dragagem serão necessárias, a depender do tipo de material encontrado, lama ou rocha.

No estudo dos aspectos químicos, serão identificados possíveis contaminantes que possam estar adsorvidos (aderidos) aos sedimentos de superfície e que possam ser remobilizados para a coluna d'água, antes, durante e após a dragagem, ficando disponíveis para a biota. Nesse sentido, o monitoramento dos compostos químicos é de vital importância para o ecossistema em estudo, para as pessoas que por ele navegam e que tiram dali o seu sustento. “é necessário saber se o material que pode vir a ser dragado está poluído e/ou contaminado e, portanto, nos ajudará a sugerir possíveis destinações desse material a ser dragado, como ser ou não reutilizado em outras áreas ou ainda se precisará ser descartado em local seguro”, detalha o cientista.

O levantamento de aspectos biológicos vai identificar quais são as espécies e comunidades de fundo que vivem na região a ser dragada e possíveis impactos sobre elas. “Todos esses levantamentos prévios servirão para caracterizar o ambiente antes da realização da dragagem em si”, conclui o professor Marcos.

O estudo também contará com análises espaciais, tendo o suporte do geoprocessamento e da ecologia de paisagem. As análises buscarão compreender a ocupação da área afetada pela dragagem e identificar as atividades existentes no seu entorno, além da cobertura vegetal presente, visto que a localização abriga uma área importante de manguezal. Ainda assim, serão avaliadas as áreas de preservação permanente e conflitos ambientais presentes na área afetada, relacionando-as com a legislação ambiental. Não obstante, considerando a análise espacial como uma ferramenta para a produção de mapeamentos temáticos, também se ocupará de auxiliar as demais atividades com a confecção de mapas específicos e do georreferenciamento de pontos amostrais e coletas realizadas.

O acordo tem vigência de 24 meses a contar da sua publicação, em novembro de 2020. O início dos levantamentos depende, em primeiro lugar, da sensibilização do Poder Público Municipal quanto à necessidade de ações para reduzir os efeitos do assoreamento na região. O passo seguinte, conta o professor Marcos, será a liberação de recursos financeiros para compra de insumos e equipamentos previstos para execução das atividades. “Garantidas essas condições, devemos buscar caracterizar o ambiente da forma mais abrangente possível e tendo em vista as particularidades dos diferentes tipos de dados de que precisamos. Por exemplo, para caracterização física de correntes, são necessários dados sob diferentes condições de maré e de vazão do rio. Já os levantamentos batimétricos devem ser realizados sob condição de tempo bom e durante períodos de maré alta de sizígia (ou marés "vivas", que ocorrem durante a lua nova ou cheia)”, explica.  

Outra técnica que está prevista, dentre outras, é a de coleta de testemunhos, colunas de material do solo e subsolo a serem retiradas em tubos, que vão permitir obter dados sobre o passado da região e seu possível grau de poluição e/ou de contaminação, estabelecendo a "memória" do local, contida nos sedimentos da região. “Quanto mais robusto, diverso e integrado o conjunto de dados, melhor será a caracterização do ambiente, o que ajudará nas etapas seguintes”, declara o professor Marcos Bernardes.

 

 

Combinação de especialidades

O trabalho de realizar todos esses levantamentos estará a cargo de uma equipe interinstitucional da UFSB e do IFBA Porto Seguro, composta por docentes com doutorado e servidores técnico-administrativos. O projeto também prevê a participação de estudantes dessas instituições nas atividades de campo. A ideia é aproveitar para agregar ainda mais prática na formação de recursos humanos de alto nível em áreas do conhecimento essenciais para uma região costeira tão dependente do rio e do mar. “O projeto reforçará o compromisso dessas instituições em contribuir para uma maior e melhor conhecimento desses ambientes estuarinos e costeiros”, pontua o professor Marcos, que afirma ainda que, sempre que possível e adequado, as coletas de dados serão planejadas e executadas de modo a se ter uma visão do ambiente como um todo.

As atividades vão mobilizar os laboratórios de Geoprocessamento e Gestão Costeira (LabGGeC), de Hidrometeorologia (LabHidrometeo), Dinâmica Costeira e Experimentação Numérica (LADCEN), Geologia e Geofísica, Estudos Planctônicos e Divulgação Científica (LEPLAD) , Ecologia e Genômica Ambiental e de Geologia e Paleontologia (LAGEOP). Todos estes laboratórios estão ligados ao Centro de Formação em Ciências Ambientais (CFCAm/UFSB) no Campus Sosígenes Costa. Também participarão as equipes dos laboratórios de Química Geral, Inorgânica e Físico-química e Laboratório de Análises Instrumentais (IFBA, Campus Porto Seguro). Os estudos relacionados à dinâmica entre o ambiente estuarino e o costeiro serão conduzidos pela equipe do LADCEN.

O LabGGEC, conforme o coordenador, professor Elfany Reis do Nascimento Lopes, e o vice-coordenador, professor Igor Emiliano Gomes Pinheiro, é um espaço de produção de conhecimento e interações entre a universidade e a sociedade para compreensão dos ecossistemas costeiros do Sul da Bahia, conflitos ambientais e conservação dos recursos naturais. A carteira de projetos de pesquisa e extensão do LabGGeC está voltada para os seguintes temas: Morfodinâmica praial e evolução da linha de costa da região de Porto Seguro e adjacências; Avaliação dos impactos das manchas de óleo na Costa do Descobrimento; Fragmentação e conectividade da Mata Atlântica baseada em mudanças de uso da terra na Mesorregião Sul da Bahia; Informação de base ecossistêmica para gestão costeira. As atividades são realizadas com o desenvolvimento de trabalho em campo, produção de dados temáticos espaciais e construção de banco de dados úteis para a gestão, política e manejo da biodiversidade costeira. Todos os projetos em andamento visam prover informações precisas e oportunas para ajudar no gerenciamento costeiro do Sul da Bahia.

 

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