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Programa de extensão trabalhou com a valorização dos idiomas e da cultura maxakali-pataxó

  • Escrito por Heleno Rocha Nazário
  • Publicado: Segunda, 15 de Outubro de 2018, 16h37
  • Última atualização em Terça, 16 de Outubro de 2018, 09h17
  • Acessos: 5008

As linguagens, as trajetórias e as estéticas de dois dos povos indígenas presentes na região do sul da Bahia e norte de Minas Gerais foram os temas dos projetos ligados ao programa de extensão Arte, História e Língua Maxakali-Pataxó. Desenvolvido entre março de 2016 e fevereiro de 2018, os projetos vinculados ao programa coordenado pela professora Rosângela Tugny integram uma das duas propostas da Universidade Federal do Sul da Bahia fomentadas pelo edital Proext Mec 2016 – a outra foi o projeto Juventude Viva, realizado em Itabuna.

Uma oficina de arqueologia também esteve entre as atividades desenvolvidas pelos extensionistas e pelos participantes indígenas

O primeiro dos três projetos chama-se Poesia e História nas cosmopistas Maxakali e Pataxó e envolveu a realização de oficinas de cinema e audiovisual, viagens de intercâmbio entre jovens e pajés das duas etnias e oficinas de trabalho em torno dos registros orais e escritos da história pataxó. No segundo projeto, intitulado Os cantos tikmu’um no processo de revitalização da língua pataxó, a equipe desenvolveu oficinas sobre cantos, histórias, as línguas indígenas e metodologias de estudo e de ensino de línguas nas escolas indígenas.

O terceiro projeto ligado ao programa foi o Interculturalidade e currículo: cinema, etnomatemática e língua indígena na UFSB e na rede de educação básica. O objetivo foi fomentar debates sobre os povos indígenas e a diversidade cultural por meio da exibição de filmes junto aos pais, alunos e professores da rede de educação básica de Porto Seguro e municípios vizinhos. Esses encontros foram também oportunidades para apresentar a universidade, seu plano orientador e discutir a função da UFSB nos projetos da sociedade. Esse projeto previu a oferta de uma oficina de Etnomatemática e Arte Indígena para alunos da educação básica, com a colaboração de alunos indígenas das escolas da região e da própria UFSB.

Ao todo, o programa de extensão, desenvolveu 30 minicursos e debates para a comunidade interna e externa, produziu quatro audiovisuais e um livro. No relatório, a professora Rosângela diz que houve “intensa participação dos integrantes das comunidades envolvidas e estudantes e colegas professores colaboradores da UFSB: Alessandra Simões e André Rego, do Campus Paulo Freire, Bernard Pego Belisário, Danúsia Lago, Rogério Ferreira e Spensy Pimentel, no Campus Sosígenes Costa, bem como professores da rede de educação Básica e das Secretarias de Educação dos estados da Bahia e Minas Gerais”. Os minicursos destinados aos estudantes do ensino Fundamental e do ensino Médio foram ofertados nos seguintes educandários: Colégio Antônio Ricaldi; Colégio Modelo de Porto Seguro; Colégio Terezinha Scaramusa, de Cabrália; Colégio Municipal do Baianão e o Colégio Indígena de Coroa Vermelha. 

O primeiro evento de distribuição dos exemplares do livro didático de patxohã ocorreu no dia 5/10, na Aldeia do Pé do Monte.

Um dos produtos desenvolvidos durante a vigência do projeto, o livro didático desenvolvido pelo coletivo de professores indígenas Atxohã deve ser distribuído em mais de 40 escolas indígenas da Bahia e de Minas Gerais. A obra é destinada ao aprendizado da língua patxohã e contém diálogos, trava-línguas e outros formatos textuais, com foco nos usos cotidianos do idioma para o ensino dos jovens, diz professora e pesquisadora Anari Braz Bonfim, integrante do coletivo. A equipe de autores trabalha em diferentes aldeias pataxó. A expectativa é de reedição junto à Secretaria de Educação de Minas Gerais, bem como o apoio de instituições municipais e estaduais para novas tiragens. A primeira tiragem foi de três mil exemplares, quantidade ainda abaixo da demanda, que é de cerca de cinco mil jovens pataxó em idade escolar, somando as aldeias na Bahia e em Minas Gerais. A professora Rosângela conta que os lançamentos que estão sendo feitos do livro de patxohã em diversas escolas Indígenas, com os primeiros sendo na escola Indígena de Coroa Vermelha e na escola da Aldeia Pé do Monte. A agenda inclui dois eventos de lançamento, um no dia 20 de outubro na Escola Indígena da Aldeia Barra Velha, Porto Seguro e outro no dia 23 na Escola Indígena Pataxó da Aldeia Kai, no município de Prado.

Os filmes produzidos ao longo da atividade do programa estão disponíveis no site do programa, com circulação em festivais e escolas além das que participaram das apresentações constantes do terceiro projeto. São produções de autoria de participantes dos cursos Inventar com a Diferença e Cinema Indígena, contando com a experiência e coordenação de colaboradores como Clarissa Nachery e Bruno Vasconcelos.

 

A professora Rosângela fala mais sobre as ações e motivações do programa e os próximos passos:

 

ACS:  Como as interfaces entre arte, história e língua dessas duas etnias indígenas podem colaborar para o reconhecimento e a valorização dessas culturas?

Rosângela de Tugny: Quando falamos de reconhecimento e valorização, falamos do ponto de vista da sociedade nacional com respeito aos povos Tikmũ’ũn e Pataxó. Digo isto porque se eles ainda hoje existem e persistem enquanto povos, é porque sempre se reconheceram e valorizaram, apesar de todos os ataques que sofreram para se desfazerem. Existe uma ignorância sistemática sobre os povos ameríndios, construída ao longo dos séculos de colonização e de pensamento colonial. Ela está presente nas Universidades, nas escolas, nos museus, na mídia, nos livros oficiais, nos currículos. Foi sistematicamente construída nos livros de história que omitem participação ativa dos povos negros e ameríndios nos processos de formação da sociedade e ignoram a riqueza de suas línguas e de suas expressões estéticas.

 

ACS:  Em relação ao segundo projeto, quais os desafios para a preservação/revitalização das línguas maxakali e pataxó? Por que se fala em retomada da língua pataxó?

Rosângela de Tugny: O Brasil é um país glotocida. Isto quer dizer que ele não realiza políticas de valorização do grande patrimônio linguístico que possui. Temos 180 dentre as 6 mil línguas faladas no planeta. Apenas 11 delas possuem mais de 5 mil falantes, ou seja: apenas 11 delas não estão classificadas como “línguas em risco de desaparecimento”. Os povos Tikmũ’ũn preservam com sua língua um sistema de pensamento, formas de classificação, sistemas de conhecimento e distinção de fauna e flora da Mata Altântica, um imaginário poético e mítico, bem como acervos linguísticos de cerca de dezenas de línguas que se falaram nesta região que compreende Minas Gerais, Espírito Santo e Sul da Bahia. Hoje, são cerca de 2.500 falantes. Não existe na região onde vivem nenhuma política que promova e incentive a permanência desta língua. Todos os serviços administrativos e comerciais das cidades vizinhas às suas áreas os obrigam a falar o português. Além disso, a sua língua, o Maxakali, considerada uma das mais complexas em termos de fonologia, nunca foi ensinada em uma Universidade de um destes estados. Qual a razão disto? Façamos o seguinte exercício: imaginem que uma situação histórica faça com que 2.500 dinamarqueses tenham que migrar para esta mesma região onde vivem os Tikmũ’ũn. O que aconteceria? Não seriam oferecidos a eles os diversos serviços públicos e comerciais em dinamarquês? As univeridades não ofereceriam cursos de língua dinamarquesa? Importante apontar que os povos Tikmũ’ũn movimentam parte majoritária do comércio próximo às suas aldeias. É preciso então que as universidades tomem consciência deste potencial linguístico que existe no país e desenvolva programas de política linguística.

Os povos Pataxó sofreram pressões extremas com respeito à sua língua e muitas de suas práticas ancestrais. Hoje ainda elaboram, relembram e se recuperam de um dos maiores massacres da região, que foi o fogo de 51, um tema desconhecido nos livros escolares da região. A retomada de seus territórios tradicionais se faz ao mesmo tempo em que os jovens procuram os velhos, e mesmo os livros de viajantes, para reencontrar seu acervo linguístico e poderem se construir com base neste território linguístico que lhes é próprio. É um processo surpreendente, no qual estão totalmente investidos. A retomada da língua, assim como do seu território envolve também práticas expressivas, o conhecimento de práticas tradicionais de medicina, artefatos, jogos, etiquetas. Enfim, a língua materna é algo muito profundo na história de um povo: é o seu chão.

As oficinas de cinema tiveram como resultados o aprendizado dos participantes e a realização de filmes pelos indígenas

 

ACS: Como funcionaram as oficinas de trabalho em torno dos registros da história pataxó?

Rosângela de Tugny: Na realidade, mais do que pensar em oficinas em que a Universidade leva algo para os pesquisadores pataxó e tikmũ’ũn, o Proext atuou na forma de parceria. Os estudantes da UFSB aprenderam ao assistir e assessorar encontros que foram realizados entre pesquisadores Pataxó e entre pesquisadores pataxó e tikmũ’ũn. Estes encontros aconteceram em diferentes aldeias destes dois povos. O trabalho da memória e da elaboração histórica se faz numa dinâmica: de produção cinematográfica onde os jovens colheram depoimentos dos anciãos; de encontros rituais, de caçadas coletivas; de edição de filmes.

 

ACS:  Os filmes produzidos durante o primeiro projeto foram exibidos como parte das atividades do terceiro projeto, correto?

Rosângela de Tugny: Sim, sobretudo os dois filmes-carta produzidos pelos professores pataxó. Os professores de Coroa Vermelha produziram um filme inteiramente falado em patxohã, que intitularam: Em todos lugares somos Pataxó. Em Cumuruxatiba, os professores produziram o filme Aos que sempre lutaram. No momento que foi realizado este trabalho, a escola, assim como a aldeia Cahi Peki, de Cumuruxatiba, estava destruída por uma violenta reintegração de posse que sofreram. O filme tem esta marca. Na realidade, contamos também com um acervo de outros filmes realizados por jovens de ambas etnias. Além deles, foi produzido o filme Força das mulheres pataxó (2019, 73’), por Caamini Braz, Vanuzia Bonfim, Vislandes Bonfim e Danila Braz, realizadoras de Barra Velha. Os dois primeiros estão disponíveis na página https://proextmaxakalipataxo.org/videos-e-fotos/

Além destes filmes, os pesquisadores pataxó optaram pela publicação do livro didático: TARAKWATÊ’RÉ IÕ PATXOHÃ: ARENEÁ, Á´BWA ŨG AMIX. IMAKÃY ÉP, IPAKÃY ÉP ŨG ARIPOTXÊ´P PATAXÓ. O livro é destinado ao aprendizado do patxohã nas Escolas Indígenas Pataxó, realizado pelo coletivo de pesquisadores Atxohã. Uma significativa coincidência fez com que esta seja a primeira publicação da UFSB que carrega um ISBN!

O livro foi publicado em 3 mil exemplares. Este quantitativo é insuficiente para as escolas indígenas Pataxó que hoje compreendem os estados de Minas e Bahia. Estamos dialogando com as Secretarias de Educação destes dois estados, que foram parceiras neste programa, para viabilizar uma segunda edição.

 

ACS: O trabalho terá continuidade com novo projeto ou novo programa de extensão? Se for possível adiantar, quais os próximos passos?

Rosângela de Tugny: Uma das metas do programa PROEXT do MEC era o de fazer com que as políticas compreendidas como “extensão” incorporassem cada vez mais o ensino e a pesquisa nas Universidades. Entendemos que a realização deste PROEXT especificamente foi extremamente construtiva na elaboração dos PPC de BI e LI Artes e produziu práticas didáticas em comunidades e escolas cujo potencial foi profundamente compreendido, de modo que foram incorporadas por vários colegas. Sabemos que um programa deu certo quando ele produz continuidades que não precisam mais ser agenciadas por uma mesma coordenação. Com respeito ao PROEXT, posso citar algumas delas. Há o trabalho com a cerâmica realizado pelo estudante Paulo Roberto de Souza que foi monitor do Programa e hoje é discente do PPGER. Ele tem estendido práticas de cerâmica em parceria com artistas indígenas em diferentes aldeias pataxó, incentivando a existência de uma rede de pesquisa em torno desta tecnologia ancestral que se oferece como uma alternativa interessante para a venda de artefatos à indústria do turismo. Este trabalho envolveu componentes curriculares e práticas do curso de arte, onde o discente exerceu um importante papel na equipe de aprendizagem ativa, se estendendo a oficinas realizadas com os estudantes do CIEPS (Complexo Integrado de Educação de Porto Seguro). Outro projeto que tem tomado seu caminho é a rede formada por realizadores de cinema indígenas Pataxó-Tikum’un que passou realizara encontros e construir projetos. Temos também o incrível projeto de Hortas Medicinais realizado na Escola Indígena de Coroa Vermelha que envolve o estudante Victor André, também bolsista do PROEXT, e hoje estudante de especialização em saúde coletiva. O projeto em um só tempo promove atividades na escola indígena de construção de conhecimentos e práticas, promove a inserção de mestres dos conhecimentos tradicionais no ensino e na pesquisa e produz bibliografia sobre o tema, consistindo-se numa séria pesquisa sobre as plantas medicinais. Esperamos que, de alguma forma, os métodos e os temas experimentados neste programa vençam a cortina de fumaça do colonialismo que ainda está bastante impregnado nos métodos, formas de pensar e currículos da UFSB, para construir novas formas de pensar a Universidade na sua relação e responsabilidade com os povos.

 

 

Galeria de fotos:

Oficina de Audiovisual
 

 

Fotos: Paulo Souza, Nicholas Dias, Lorena Garcia, Clarissa Santos Silva

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