Estudo mostra os primeiros dados sobre a qualidade do ar em Itabuna
A qualidade do ar é tema que sempre merece atenção. Uma pesquisa realizada na Universidade Federal do Sul da Bahia analisou os primeiros resultados sobre as substâncias que os moradores de Itabuna respiram a cada dia. O resultado indica que há compostos cancerígenos nas amostras coletadas em três pontos da cidade. Ainda em concentrações abaixo do limite, mas que já preocupam pelos efeitos de longo prazo.
A investigação foi descrita no artigo Urban Air Quality: Occurrence, Emission Sources and Risk Assessment of Polycyclic Aromatic Hydrocarbons (PAHs) in Airborne Fine Particles [Qualidade do Ar Urbano: Ocorrência, Fontes de Emissão e Avaliação de Risco de Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos em Partículas Finas do Ar], assinado por Raiane Silva da Cruz, Madson Moreira Nascimento e Leila Oliveira Santos, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), e por Aldenor Gomes Santos, do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), em Salinas, Minas Gerais. O artigo foi publicado no periódico Journal of Bioengineering and Technology Health (JBTH), volume 9, número 3, de 2026, nas páginas 231 a 236. Além da equipe que assina o artigo, a professora e cientista Rita de Cássia Avelino Suassuna, da UFSB, também trabalhou nesse projeto.
Por que isso importa?
Os compostos que causam preocupação são os Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos, os HPAs (PAHs, na sigla em inglês). A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica esses compostos como cancerígenos e mutagênicos. Isso significa que eles podem causar câncer e danificar o material genético das células.
Os HPAs são como "resíduos invisíveis" da queima de combustíveis. Esses compostos são emitidos no ambiente pela queima ou decomposição térmica de materiais orgânicos, como queima de biomassa, combustão de combustíveis, emissões veiculares, atividades industriais e fontes petrogênicas (relacionadas ao petróleo e seus derivados).
Os HPAs não flutuam sozinhos no ar. Eles se grudam em partículas minúsculas chamadas PM₂,₅. Esses micro partículas têm menos de 2,5 micrômetros de diâmetro. Para ter uma ideia: um fio de cabelo tem uma espessura entre 70 e 100 micrômetros. Por serem tão pequenas, essas partículas passam pelo nariz e pela garganta sem serem retidas. Elas chegam direto aos alvéolos pulmonares — as bolsas por onde o oxigênio entra na corrente sanguínea.
O estudo realizado mediu a presença desses compostos na atmosfera urbana de Itabuna, no sul da Bahia, com três objetivos centrais: quantificar as concentrações dos compostos, identificar as fontes potenciais de emissão e avaliar o risco à saúde com base no Risco Incremental Vitalício de Câncer (ILCR, do inglês Incremental Lifetime Cancer Risk).
Essa escolha se baseou em dois pontos. O primeiro: o Brasil ainda não possui limites regulatórios para HPAs no ar ambiente. Isso torna as avaliações locais muito importantes para orientar a gestão ambiental e as políticas de saúde pública. O segundo: apesar da rápida urbanização e do crescimento das frotas de veículos, há poucos dados sobre qualidade do ar em municípios brasileiros de porte médio, como Itabuna.
A professora Leila Oliveira Santos, vinculada ao Centro de Formação em Tecno-ciências e Inovação (CFTCI), explica que os resultados apontam para uma potencial preocupação com a exposição crônica de longo prazo a esse tipo de poluente, em especial nas áreas com maior influência do tráfego veicular. Esse é o risco que o indicador ILCR ajuda a calcular.
Como a pesquisa foi feita
A equipe coletou amostras em três locais de Itabuna entre 2021 e 2022. Os pontos foram escolhidos por terem perfis diferentes de atividade humana, na época da realização da pesquisa.
O primeiro ponto foi na antiga localização do Campus Jorge Amado da UFSB, em Ferradas. Essa área era classificada como zona rural no antigo plano diretor da cidade. Por isso, era o local onde se esperava menor presença dos compostos. Atualmente, o plano diretor de Itabuna classifica essa área como Zona Urbana em Expansão.
O segundo foi o 15º Batalhão da Polícia Militar, em bairro residencial. O terceiro foi o Shopping Jequitibá, área de intenso tráfego de veículos, o ponto no qual se imaginava ter a maior concentração de HPAs.
Ao todo, foram coletadas 21 amostras, usando um amostrador de alto volume equipado para reter partículas menores que 2,5 micrômetros de diâmetro. Os filtros usados na coleta durante 24 horas foram armazenados a 4ºC até a análise. Depois, as amostras foram analisadas com um equipamento que separa e identifica os compostos químicos: o cromatógrafo acoplado a espectrômetro de massas, calibrado para detectar compostos-alvo específicos pelo monitoramento de íons selecionados.
Essa etapa permitiu determinar a origem dos HPAs, como uma impressão digital química de cada fonte poluidora. Isso foi possível pela técnica chamada Razões Diagnósticas Moleculares. O resultado apontou escapamentos de veículos a diesel como principal origem dos compostos. A queima de gasolina também foi identificada como fonte relevante, especialmente na área do shopping.
A terceira etapa foi calcular o risco de câncer por inalação. Esse risco foi calculado em três etapas:
- Conversão das concentrações dos HPAs em concentrações equivalentes de benzo(a)pireno (BaPeq), usando fatores de equivalência tóxica (TEF) para carcinogenicidade (capacidade de causar câncer) e fatores de equivalência mutagênica (MEF) para mutagenicidade (capacidade de causar mutações genéticas).
- Cálculo da exposição diária por inalação (EI), considerando a taxa de inalação (IR) de cada grupo populacional.
- Estimativa do ILCR — Risco Incremental Vitalício de Câncer — utilizando o fator de declive (SF) de 3,14 (mg kg⁻¹ dia⁻¹)⁻¹ para o benzo(a)pireno, conforme estabelecido pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (U.S. EPA).
A avaliação contemplou quatro grupos populacionais com parâmetros distintos de peso corporal, taxa de inalação e duração de exposição:
| Grupo | Faixa etária | Taxa de inalação | Peso corporal | Duração de exposição |
|---|---|---|---|---|
| Adultos | >21 anos | 16,4 m³/dia | 80,0 kg | 50 anos |
| Adolescentes | 11–16 anos | 21,9 m³/dia | 56,8 kg | 6 anos |
| Crianças | 1–11 anos | 13,3 m³/dia | 26,5 kg | 11 anos |
| Lactentes | <1 ano | 6,8 m³/dia | 6,8 kg | 1 ano |
O resultado mais surpreendente
Os dados mostram que dos 16 HPAs prioritários investigados, 13 foram detectados em todas as 21 amostras, representando 82% dos HPAs quantificados nas frações de PM₂,₅. Os compostos detectados foram: fluoreno, fenantreno, fluoranteno, antraceno, benzo[a]antraceno, criseno, benzo[b]fluoranteno, benzo[k]fluoranteno, benzo[a]pireno, indeno[1,2,3-cd]pireno, dibenzo[a,h]antraceno e benzo[g,h,i]perileno.
A surpresa maior foi saber o local com a maior concentração de poluentes: o campus da UFSB — e não o shopping, como se poderia esperar. A maior concentração total, com média de 3,28 ng m⁻³, localizada numa área dentro da zona rural no plano diretor de Itabuna, se explica pelas atividades industriais, empresas de transporte de cargas com veículos pesados e tráfego intenso em rodovia federal próxima do campus provisório.
À primeira vista, esse resultado pode causar surpresa. A expectativa era de menores concentrações de poluentes atmosféricos devido ao fato de menos pessoas morarem ali e da reduzida atividade humana.
"Esse achado evidencia um aspecto importante da avaliação da qualidade do ar: a classificação territorial (rural/urbana) nem sempre reflete a real exposição ambiental. Uma área formalmente rural pode apresentar carga significativa de poluentes quando está inserida em zonas de influência de emissões veiculares e industriais. Portanto, a resposta mais adequada seria: sim, o resultado foi inicialmente surpreendente por contrariar a expectativa para uma área rural; porém, torna-se coerente após considerar as fontes locais de emissão identificadas pelos autores", ensina a professora Leila Santos.
O ponto de amostragem no 15º Batalhão de Polícia Militar registrou as menores concentrações de compostos, por estar em bairro residencial. O Shopping Jequitibá apresentou concentrações intermediárias.
A respeito das fontes de poluição, as razões diagnósticas moleculares (relações matemáticas entre a concentração de pares específicos de HPAs usadas para identificar as fontes de emissão) indicaram que a maioria das emissões vêm da combustão de diesel e gasolina, principalmente por veículos.
- Razão BbF/BkF (>0,50 nos três pontos: 1,44; 3,0 e 4,5): indica emissões de escapamentos de veículos a diesel como fonte provável.
- Razão BaP/BgP (>1,25 nos três pontos: 2,69; 4,0 e 5,20): sugere queima de carvão como fonte provável.
- Razão BaP/(BaP+CRY) (0,73 no Shopping Jequitibá): indica combustão de gasolina como principal fonte naquela área.
- Razão FLT/(FLT+PYR) (entre 0,35 e 0,51): reforça a identificação da combustão de gasolina como fonte nos demais pontos.
Risco dentro do limite hoje, preocupante a longo prazo
A equipe calculou o chamado Risco Incremental Vitalício de Câncer. Esse indicador informa o aumento na chance de uma pessoa desenvolver câncer ao longo de toda uma vida de exposição.
Os valores encontrados ficaram dentro da faixa considerada aceitável pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). Valores superiores são considerados indicativos de alto risco potencial à saúde. Mas os pesquisadores alertam: a exposição contínua, especialmente em áreas de alto tráfego, representa preocupação real a longo prazo.
Crianças e adultos foram os grupos com maior exposição estimada — por razões diferentes. Crianças respiram mais rápido em relação ao seu peso. Adultos acumulam décadas de exposição. Os resultados indicam, no caso da área com maior índice de emissões, uma probabilidade aproximada de: 8,31 lactentes a cada 100 milhões e 8,51 adultos a cada 10 milhões desenvolverem câncer ao longo da vida em decorrência da exposição estudada.
Os critérios da EPA, conforme a professora Leila Santos, permitem classificar esses valores dentro da faixa aceitável. Isso significa um alerta, pois a exposição contínua aos HPAs pode contribuir para efeitos como aumento do risco de câncer, inflamações pulmonares, agravamento de alergias respiratórias, doenças respiratórias e cardiovasculares.
"Em síntese: não foi identificado um cenário de risco agudo elevado, mas sim um risco crônico cumulativo que merece monitoramento ambiental contínuo", pontua a professora Leila.
O benzo(a)pireno é o principal indicador de poluição por HPAs. O composto foi encontrado em 100% das amostras coletadas, com médias de 0,35 ng/m⁻³(nanograma por metro cúbico de ar) (UFSB), 0,24 ng/m⁻³ (15º BPM) e 0,26 ng/m⁻³ (Shopping Jequitibá). Os valores ficaram abaixo do limite estabelecido pela União Europeia — 1,0 nanograma por metro cúbico de ar.
O Brasil não possui limite regulatório próprio para este composto no ar ambiente. E isso é um problema semelhante a ter um termômetro, mas sem ter nenhuma referência de temperatura considerada segura.
O indeno[1,2,3-cd]pireno apresentou a maior concentração no ponto da UFSB (média de 0,69 ng m⁻³), seguido por 0,34 ng m⁻³ e 0,43 ng m⁻³ nos demais pontos. Este composto tem potencial para agravar inflamações pulmonares alérgicas, e sua presença em material particulado evidencia a contribuição das emissões veiculares.
A professora Leila Santos explica que não há previsão de continuar esse monitoramento sistemático da qualidade do ar em Itabuna. Acompanhar de forma constante é valioso para compreender a dinâmica dos poluentes atmosféricos e subsidiar políticas públicas. Valioso e caro: "a realização de campanhas de monitoramento envolve custos elevados relacionados à aquisição e manutenção de equipamentos, insumos de amostragem e análises laboratoriais especializadas. Dessa forma, a continuidade de estudos dessa natureza depende da captação de recursos e do financiamento de novos projetos de pesquisa", aponta a cientista.
Como agir nesse problema?
Diante desse cenário sem regulação nacional do limite aceitável, o artigo aponta a necessidade de medidas voltadas à gestão ambiental preventiva e proteção da saúde pública. A primeira delas seria a definição de limites legais para os HPAs no ambiente. A desregulação nesse quesito é tal que os próprios cientistas utilizaram referências internacionais para a medição. Mais recursos para implantar o monitoramento sistemático da qualidade do ar nas cidades grandes e médias é outra proposta.
As providências de controle de emissões veiculares podem incluir inspeção e manutenção de veículos, a renovação de frotas antigas, o incentivo ao transporte público, a adoção de veículos elétricos e a redução do uso de combustíveis muito poluentes. Esse ponto se deve ao predomínio das emissões dos escapamentos de carros, motos e caminhões na amostragem analisada.
Além disso, o uso de motores a combustão e o os valores de poluentes registrados em Ferradas mostram como áreas classificadas como rurais podem receber influência industrial e do tráfego nas rodovias. Por isso, sugere-se a adoção de políticas que estabeleçam zonas de amortecimento dessas emissões. Rever o licenciamento de empresas e incluir a dispersão de poluentes como critério no planejamento territorial são outras sugestões no campo de planejamento urbano e de uso de solo.
Os autores do artigo mencionam que políticas integradas entre meio ambiente e saúde podem monitorar grupos mais vulneráveis, como crianças e idosos. E o investimento em pesquisas regionais sobre a qualidade do ar é visto como essencial para decisões regulatórias com base em evidências científicas. Leila reforça: "Ausência regulatória não significa ausência de risco; ao contrário, reforça a necessidade de políticas preventivas baseadas em monitoramento, controle de emissões e proteção da saúde coletiva".
Cuidados pessoais
Em termos de medidas individuais para evitar ou amenizar o risco de inalação de hidrocarbonetos, a professora Leila sugere reduzir a exposição. Mas como fazer isso? Ela lista algumas ideias.
É prudente evitar atividades físicas intensas em horários e locais de maior tráfego. Isso porque a taxa respiratória aumenta e a quantidade de partículas inaladas também cresce durante exercícios. Se possivel, evitar ficar muito tempo perto do tráfego intenso, pois as emissões dos escapamentos são fontes dos HPAs. Vale acompanhar os índices de qualidade do ar, quando estiverem disponíveis. Isso ajuda a reduzir a exposição ao ambiente externo.
A ventilação dos ambientes internos deve ser estratégica, de modo a evitar entrada contínua de ar em dias de muito trânsito, poeira ou fumaça. O uso de máscaras filtrantes adequadas, como as dos modelos PFF2/N95, é outra recomendação da professora Leila para diminuir a inalação de partículas finas em ambientes de maior exposição. A queima de lixo, carvão, lenha e o hábito de fumar liberam partículas finas e compostos semelhantes aos HPAs, então convém evitar. E, sempre que possível, oferecer proteção especial para crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares, por serem mais sensíveis aos efeitos da exposição prolongada aos hidrocarbonetos policíclicos aromáticos.
"É importante destacar que essas medidas reduzem a exposição individual, mas não eliminam o problema na origem", reforça a professora Leila.
E os carros elétricos?
Como o problema está bem ligado ao uso de veículos movidos a gasolina e diesel, a chegada dos carros elétricos parece uma solução interessante. A professora Leila Oliveira Santos pondera que a pesquisa indicou que a principal fonte de HPAs em micropartículas foram os motores a combustão e o tráfego. Assim, uma substituição gradual por veículos elétricos tende a reduzir as emissões de HPAs e de material particulado da combustão, as concentrações de compostos que prejudicam a saúde e os riscos da exposição prolongada a essas emissões.
No entanto, destaca a cientista, alguns pontos devem ser considerados em relação à eletrificação da frota. O primeiro é que a redução de poluentes não será proporcional à quantidade de veículos elétricos nas ruas. Isso porque "veículos elétricos continuam emitindo partículas provenientes do desgaste de pneus, freios e pavimento. Em muitos centros urbanos, essas fontes já representam uma parcela significativa do material particulado", explica Leila.
Outro ponto é que a eletrificação de veículos pesados avança mais devagar. O transporte de cargas no Sul da Bahia, a exemplo de outras regiões do Brasil, depende muito dos caminhões de carga movidos a diesel. E essa atividade gera concentrações mais elevadas de HPAs no ambiente próximo.
A professora Leila explica ainda que a equipe de pesquisa identificou indícios de contribuições de processos industriais e de combustão de carvão: "Assim, mesmo com a redução das emissões veiculares, outras fontes antropogênicas permaneceriam influenciando a qualidade do ar".
Por outro lado, a Bahia apresenta um contexto favorável para a eletrificação de veículos. O estado tem recebido investimentos importantes na cadeia de mobilidade elétrica e na produção de baterias e veículos eletrificados. "Como a matriz elétrica brasileira possui elevada participação de fontes renováveis, especialmente hidrelétrica, eólica e solar, o benefício ambiental da eletrificação tende a ser maior do que em países dependentes de carvão mineral para geração de energia", avalia a pesquisadora.
Por esses motivos, a professora Leila Santos avalia que, mesmo que a eletrificação ajude a diminuir as emissões de queima de gasolina e diesel, a permanência de outras fontes emissoras e das partículas não relacionadas à combustão indica que a melhoria da qualidade do ar dependerá de estratégias integradas de gestão ambiental e mobilidade urbana.

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