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Artigo analisa a resiliência da Mata Atlântica e destaca necessidade de projetos de restauração ativa

Escrito por Heleno Rocha Nazário | Publicado: Quarta, 24 de Junho de 2020, 15h20 | Última atualização em Quarta, 24 de Junho de 2020, 15h23 | Acessos: 193

Com informações e imagens por Nathália Vieira Hissa Safar,
Carlos Ernesto Gonçalves Reynaud Schaefer e Luiz Fernando Silva Magnago

 

 

As metas ambientais nacionais e globais de recuperação da Mata Atlântica dificilmente serão cumpridas se não houver intervenção inteligente e constante, com projetos de restauração ativa que se agreguem aos processos de regeneração natural das florestas. Essa conclusão é um dos resultados de estudo descrito no artigo Resilience of lowland Atlantic forests in a highly fragmented landscape: insights on the temporal scale of landscape restoration, publicado na revista Forest Ecology and Management e assinado pela doutoranda Nathália Vieira Hissa Safar (PPG-BOT/UFV) e pelos professores Carlos Ernesto Gonçalves Reynaud Schaefer (DPS/UFV) e Luiz Fernando Silva Magnago (CFCAF/UFSB). Na pesquisa realizada, a equipe de cientistas trata da capacidade de regeneração natural, ou resiliência, de remanescentes de florestas de tabuleiro, num contexto de paisagem altamente fragmentada como a do bioma Mata Atlântica, e discute as implicações dos resultados no cumprimento de metas globais e nacionais para restauração florestal, conservação da biodiversidade e mitigação de mudanças climáticas.

Conforme os autores, o objetivo era avaliar os efeitos da idade da floresta no número total de espécies arbóreas e de espécies com alto valor de conservação (endêmicas e ameaçadas), na composição de espécies arbóreas e no estoque de carbono. Com isso, se queria saber se esses parâmetros estão se recuperando naturalmente ao longo do tempo e qual o prazo aproximado para que atinjam valores encontrados em florestas maduras próximas. Como nem todos os ecossistemas são capazes de se recuperar pelos seus próprios meios, compreender a capacidade e o tempo necessário para as florestas se recuperarem de um distúrbio contribui para estabelecer previsões seguras sobre o que aconteceria com essas florestas em diferentes cenários de impactos ambientais, além de auxiliar na criação de iniciativas e investimentos eficazes para a conservação da biodiversidade e carbono.

Impactos ambientais desencadeiam o processo de regeneração natural que envolve mudanças na diversidade e estrutura da comunidade vegetal. Para avaliar se essas florestas estão recuperando esses parâmetros ao longo da sucessão, os pesquisadores amostraram florestas maduras, utilizadas como ecossistemas de referência, e também florestas em regeneração localizadas no norte do Espírito Santo e sul da Bahia. Mais especificamente, dentro e no entorno de duas Unidades de Conservação, a Reserva Biológica do Córrego Grande (RBCG) e a Floresta Nacional do Rio Preto (FNRP). Em cada floresta foram medidas e identificadas as espécies arbóreas dentro de um critério pré-estabelecido. Para cada espécie amostrada foram obtidos seus status de endemismo da Mata Atlântica e de ameaçada, de acordo com a lista vermelha da IUCN, e determinada sua capacidade de armazenamento de carbono.

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Figura 1. Floresta em regeneração (cerca de 20 anos) pós fogo amostrada nesse estudo, Conceição da Barra, Espírito Santo, Brasil. Foto: Nathália Safar.

 

O estudo observou uma rápida recuperação da riqueza de espécies arbóreas nessas florestas (aproximadamente 80 anos para recuperar completamente), o que indica que a regeneração passiva (natural) pode ser uma ferramenta viável para recuperar o número de espécies. Os resultados sugerem que, na hipótese de se cessar o desmatamento e permitir que ecossistemas se regenerem naturalmente, as metas nacionais para a restauração da biodiversidade podem ser alcançadas. Por outro lado, as espécies com alto valor de conservação, como as endêmicas e as ameaçadas, não estão se recuperando ao longo da sucessão. Também é alarmante a lenta recuperação dos estoques de carbono e da composição de espécies arbóreas, que levariam cerca de centenas a milhares de anos para recuperar valores similares aos das florestas maduras próximas, conforme as previsões feitas pelo estudo.

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Figura 2. Floresta Madura amostrada nesse estudo, REBIO do Córrego Grande, Conceição da Barra, Espírito Santo, Brasil. Foto: Nathália Safar

Na prática, isto significa que essas florestas podem nunca se recuperar completamente. As previsões indicam que metas estabelecidas pelos acordos de conservação vigentes que tem como objetivo restaurar áreas desmatadas (ex. Metas Nacionais de Biodiversidade 2013-2020; Bonn Challenge 2016-2030; ENREDD+ nacional 2015-2030; Pacto de Restauração da Mata Atlântica 2009-2050) são demasiadamente otimistas.

 

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Figura 3. Efeitos da idade da floresta na riqueza total de espécies arbóreas (A), na composição de espécies arbóreas (B) e no estoque de carbono acima do solo (C). As curvas em verde mostram a tendência de recuperação absoluta desses parâmetros ao longo do tempo e a linha tracejada laranja indica a média dos valores encontrados nas florestas maduras.

De acordo com os pesquisadores, os dados encontrados permitem concluir que será um desafio alcançar as metas nacionais de conservação da biodiversidade, mitigação das mudanças climáticas e restauração da paisagem por meio da restauração passiva, sendo necessário algum tipo de intervenção nessas áreas. Daí a importância, segundo os autores, do comprometimento do governo em investir esforços em planos de conservação e mitigação por um período muito mais longo do que o tem sido determinado pelas metas ambientais vigentes, bem como em criar estratégias de regeneração assistidas em áreas de média a baixa resiliência e altos valores de conservação e mitigação.

O professor Luiz Fernando Magnago falou sobre os resultados apresentados no artigo em entrevista por e-mail.

 

ACS: Que fatores impedem ou tornam mais lenta a recuperação de espécies ameaçadas e de espécies endêmicas? Que consequências temos com a extinção de uma espécie arbórea, por exemplo?

Professor Luiz Fernando Magnago: A recuperação lenta de espécies ameaçadas e endêmicas se deve a diversos fatores (ecológicos e uso humano), mas o principal se deve a raridade natural (baixo número de indivíduos) nas paisagens em que ocorrem, o que torna sua probabilidade de colonização de novas florestas mais baixa. A extinção destas espécies em paisagens pode causar: (i) perda de linhagens evolutivas raras; (ii) perda de uma função ecossistêmica importante (ex. recursos alimentares para fauna, sequestro e estocagem de carbono, etc) e (iii) reduzir a importância para conservação de uma paisagem, já que a presença destas espécies é um importante indicador para ações prioritárias de políticas de conservação.

 

ACS: A recuperação dos estoques de carbono também é mais lenta que a recuperação da biodiversidade de espécies, conforme os resultados. Por que esse resultado é importante?

Professor Luiz Fernando Magnago: Porque ele indica que temos que nos preocupar de formas separadas para atingir metas de conservação, ou seja, a biodiversidade tem mais resiliência do que alguns serviços ecossistêmicos, como o sequestro e estoque de carbono atmosférico na biomassa florestal.

 

ACS: Para que ações de restauração ativa sejam eficientes, quais prazos e medidas deveriam ser colocados no debate dessas políticas pública

Professor Luiz Fernando Magnago: Os prazos ainda são complicados, pois temos poucos estudos sobre isso em níveis de paisagem, mas como medida, o reconhecimento de paisagens florestais mais resilientes deve ser um forte indicador para priorizar áreas para implantação de projetos de restauração florestal, pois o sucesso nessas paisagens deve ser maior.

 

 

 

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