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Docência no 26o Curso de Formação de Agentes Agroflorestais Indígenas: novas janelas de conhecimento

  • Publicado: Sábado, 09 de Novembro de 2019, 21h14
  • Última atualização em Sábado, 09 de Novembro de 2019, 21h19
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Rosângela Pereira de Tugny com Kakã Taxu Bane na Casa dos Autores, no Centro de Formação dos Povos da Floresta. (foto: Leilane Marinho)
imagem sem descrição.

Por Rosângela Pereira de Tugny, professora da Universidade Federal do Sul da Bahia 

Cheguei na Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre) como convidada a orientar durante 20 dias os trabalhos de monografia dos Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs) que estão concluindo o curso de ensino médio oferecido pela instituição. Primeiramente descobri algo para mim inusitado: a categoria de Agente Agroflorestal Indígena. Com o passar de alguns dias,  ouvindo suas conversas durante os momentos de refeição ou repouso, fui me dando conta da urgência, da importância e da grandeza do papel que eles desempenham. Protegem as florestas e os territórios, pesquisam a história e a arqueologia deste imenso jardim onde vivem retomando a história dos velhos das aldeias, garantem a soberania alimentar das suas comunidades e de sua vizinhança por meio da transmissão de um saber milenar sobre a floresta. Seu trabalho é fundamental para a segurança alimentar da população, não somente de suas comunidades ou do estado do Acre, mas de todo o planeta, pois estão sempre manejando uma grande variedade de espécies de plantas, legumes, frutas e grãos. São também eles que assessoram diversos cientistas e pesquisadores de órgãos públicos conduzindo-os pelas florestas, roçados e igarapés. Me surpreendi quando os ouvia, um a um, dizerem sobre os seus 3 ou 4 mil pés de banana plantados, sobre os cupuaçus, açaís, castanhas, pupunhas, e toda a abundância de alimentos que sobram para as pessoas e os animais nas suas terras.

Também me chamou a atenção a qualidade do acolhimento e das demonstrações de gratidão com a qual fui recebida. Os estudantes que ali, na belíssima edificação da Casa dos Autores, aguardavam a mim e colegas que viriam orientá-los na escrita do trabalho de monografia, são altivos, serenos, confiantes, fortes, alegres, belamente vestidos e adornados, dotados de uma capacidade de escuta e atenção nunca antes experimentada em minha vida de docência.  Os temas das pesquisas que estão sendo relatadas e inscritas em línguas Hãtxa Kuĩ, Ashaninka, Shawadawa, Manchineri, Puyanawa, ou no formato bilíngue, se referem às lutas pelo território, à infância nas aldeias, aos cuidados com a alimentação, às práticas da caça, às espécies de plantas dos sistemas de agrofloresta, à diversidade dos legumes do roçado manejados pelos mais velhos, ao uso e manejo de recursos naturais, à arqueologia dos povos mais antigos que viveram nas matas, e ainda sobre a realização de rituais que envolvem alimentos, danças, e sofisticados repertórios poéticos mítico-musicais. Algo de muito precioso se passa ali, neste espaço de tradução, quando eles elaboram, com os recursos da escrita alfabética (relativamente novos em seu universo) o resultado de suas pesquisas. Geralmente são  quase sempre apenas eles a dominarem as diferentes línguas. Ao acompanhá-los na sistematização de seus conhecimentos, assistia, como numa arte de dispor simetricamente as miçangas em um jogo infinito de variações, a forma como eles dispunham as letras, do caderno ao computador, levando a língua portuguesa a ampliar suas possibilidades expressivas. Todos ganhamos quando esta língua, que por força da história colonial nos une, se deixa habitar e expandir pelo pensamento de suas línguas nativas e suas experiências de origem.

Com três dias na CPI-Acre, vinda da região sudeste do país, aprendendo com Kakã Taxu Bane, Txaná Inu, e os demais escritores Agentes Agroflorestais Indígenas, ampliei meu vocabulário com palavras como: embiara (do tupi m’biára), curipe, sacupema, sapota, aninga-açu, biorama, uria de pau, pama, paxiubão, murmuru, cocão, oricuri, quatipuru, cangati e tantas outras. Cada palavra destas me abre novas janelas de conhecimento sobre sistemas milenares de formas de vida e comportamento, me ensina sobre ética, sobre formas expressão e reprodução da vida entre pessoas, animas e plantas. Mas o mais surpreendente ao estar aqui, assessorando estes autores em seus trabalhos de conclusão do curso, é entrever sistemas de conhecimento totalmente diferentes. Ali, na Casa dos Autores, entre um tema e outro de trabalho, ouvimos canções sendo entoadas pelos AAFIs. Estes cantos que eles carregam consigo, são eles mesmos um modo de apreender as coisas do mundo na relação de umas com as outras. Como imaginar que a preparação de um bom caçador começa no seu batizado, quando as mães os balançam nas suas redes e os homens circulam entoando os cantos das suas futuras presas? Nestes cantos o estatuto das palavras é totalmente outro: não um instrumento de comunicação, ou não apenas. Elas são a potência, ou a capacidade de agir sobre os entes. E se os cantos são tudo isso, como traduzi-los? Como imaginar uma real situação de aprendizado que seja do corpo, da inteligência e da espiritualidade?

A experiência de trabalho ao lado dos AAFIs me faz descobrir um mundo onde conhecer não é fragmentar a vida e os seres que vivem em relação, nas disciplinas que reconhecemos como biologia, zoologia, botânica, medicina, arte, música, teatro, pintura, geografia, sociologia, antropologia, história ou mito. Não porque lhes falte maestria sobre todos estes temas, mas porque não é sensato separá-los. Existe entre eles uma escuta e uma presença atenta a tudo que se relaciona, uma inteligência de sistemas. Assim, enquanto estão atentos à capacidade didática da voz e do canto do capelão que contem a multiplicidade de harmônicos, também cuidam das dietas de sua carne nas fases da vida da criança e dos jovens. Compreendem muito de música, plantio,  preparação de mudas, mas também de cuidados. Como devem ser os banhos com as folhas, como cuidar do crescimento das crianças e das plantas, do tempo da lua e das chuvas para os gestos de plantio, enfim, estão conectados com os sistemas de vida. Conhecem com precisão de detalhes todos estes ciclos. Enfim, com esta rica experiência, estou reaprendendo, não sobre inter ou transdisciplinaridade, um tema muito discutido hoje nas universidades de todo o mundo. Mas sobre uma ciência de um mundo complexo, rico e dinâmico que jamais sequer concebeu a existência de disciplinas, onde as relações que impulsionam os movimentos é que realmente contam na formação das pessoas e todos os demais entes que habitam nosso planeta.

Texto originalmente publicado no site da Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre)

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