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Depósito de patente em co-titularidade entre UFMG, UFSB e FURG identificou potencial fármaco contra leishmanioses

Escrito por Heleno Rocha Nazário | Publicado: Terça, 30 de Julho de 2019, 16h47 | Última atualização em Terça, 30 de Julho de 2019, 18h02 | Acessos: 534

   Uma pesquisa sobre compostos químicos ativos para o tratamento das leishmanioses que sejam mais eficazes e sem os efeitos colaterais da medicação usada hoje gerou um depósito de patente de invenção em co-titularidade da Universidade Federal do Sul da Bahia, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Federal de Rio Grande (FURG). Os cientistas responsáveis pela nova tecnologia são Ricardo Toshio Fujiwara e Raquel Martins de Almeida (UFMG), Sebastião Rodrigo Ferreira (CPF - UFSB), Vânia Rodrigues de Lima, Darlene Correa Flores e Amanda Vicente Marques (FURG). É o primeiro depósito de patente de invenção da UFSB.

   O documento intitulado "Composições Farmacêuticas Antiparasitárias Contendo Curcuminóides Modificados e Uso" junto ao Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (INPI) descreve as composições e possibilidades de uso de três compostos químicos (curcuminóides modificados) que apresentaram eficácia para inibir crescimento das formas amastigotas (formas causadoras da doença) do protozoário Leishmania infantum nos testes in vitro em baixas concentrações e com bons índices de seletividade, permitindo antever novos medicamentos com menos efeitos adversos aos pacientes. "É um teste inicial no qual foi encontrado um candidato a fármaco com resultados bastante promissores; isso é muito importante quando estamos falando de uma doença que possui apenas dois fármacos disponíveis para tratamento (glucantime e anfotericina B), que são bastante tóxicos e possuem muitos efeitos colaterais", afirma o professor Sebastião Rodrigo Fereira, que pesquisa novos princípios ativos contra as leishmanioses. O projeto de doutorado de Amanda sobre o uso de curcuminóides modificados, iniciou em 2015, e os testes dos compostos sobre o protozoário Leishmania infantum começaram em 2018.
Tecnologia identificou princípios ativos contra o Leishmania infantum 
(na imagem, o teste de citotoxicidade em macrófagos, técnica MTT)

   O professor Rodrigo conta que a interação entre os grupos de pesquisa da FURG e da UFSB começou a partir do contato entre ele, a professora Vânia e Amanda durante apresentações das respectivas pesquisas na Semana da Ciência e Tecnologia de 2017 em Roraima. "Vânia, Amanda e Darlene são da Escola de Química da Furg e trabalham com síntese e modificação de compostos, como por exemplo os curcuminóides, que tem como estrutura básica a curcumina. Como os grupos de pesquisa, geralmente, trabalham em colaboração, nós colaboramos no desenvolvimento deste projeto. Eu tenho expertise nos testes de fármacos em leishmania. Usando a infraestrutura do laboratório do professor Ricardo na UFMG, nós realizamos os experimentos dos testes dos curcuminóides, produzidos pela equipe da FURG, sobre os protozoários", relata Rodrigo.

 

Teste mediu efeitos do fármaco nas formas causadoras da doença

   Um diferencial do estudo foi o teste dos compostos modificados nas formas causadoras da doença, decisão de pesquisa que está presente nos estudos atuais do professor Rodrigo Ferreira, que leciona e atua no Campus Paulo Freire, em Teixeira de Freitas. No ciclo do Leishmania infantum, a forma amastigota (sem flagelo) é a que parasita os macrófagos, células do sistema de defesa do corpo humano. O professor Rodrigo explica que esse tipo de experimento é menos comum por ser mais complexo, devido ao fato da forma amastigota (forma evolutiva que está dentro da célula hospedeira-macrófago) do protozoário estar “albergada” dentro de uma célula: "O fármaco precisa atravessar a célula para então agir sobre o protozoário, podendo sofrer transformação do metabolismo celular, o que pode influenciar na atividade do fármaco. Além do mais, o próprio teste sobre amastigotas exige uma maior disponibilidade de infraestrutura laboratorial e habilidades com o cultivo do parasito". Os experimentos comprovaram que os compostos modificados possuem alta efetividade contra o protozoário em baixas dosagens e índices mais altos de seletividade em relação aos medicamentos existentes, o que significa que são menos tóxicos para as células do organismo humano, como os macrófagos, muito atingidos pelos tratamentos disponíveis hoje. 

   A tecnologia pode embasar a criação de medicamentos mais eficazes contra um grupo de doenças causadas por mais de 20 espécies de protozoários, com manifestações clínicas que vão de lesões desfigurantes, no caso das leishmanioses cutânea e mucocutânea, ao aumento expressivo do volume do baço e do fígado na forma visceral, que apresenta taxa de mortalidade acima de 90%, conforme dados do Ministério da Saúde. As drogas usadas hoje no Brasil para o tratamento da leishmaniose visceral são os antimônios pentavalentes, empregados desde a década de 1950, tendo a anfotericina B como segunda alternativa.Esses medicamentos têm eficácia limitada sobre o protozoário, difícil administração, necessita altas doses de tratamento e consequente aumento dos efeitos indesejados nos pacientes, como vômitos, artralgia, hepatite, pancreatite, disritmias cardíacas, nefrotoxicidade e hipocalemia (quantidade insuficiente de potássio no sangue).

   A pesquisa contou com apoios da Capes (na forma de bolsa Capes para a pesquisadora Amanda Vicente Marques e bolsa de pós-doutorado para a professora Darlene Correa Flores). O projeto também foi beneficiado pelos financiamentos da FAPEMIG e do CNPq para o laboratório coordenado pelo professor Ricardo Fujiwara (UFMG). Após a concessão da carta-patente, a invenção estará protegida contra o seu uso para a produção e venda de produtos por terceiros sem o consentimento dos titulares.

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