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PPGES (1)
Contextualização institucional e regional da proposta

O Programa de Pós-Graduação em Estado e Sociedade da Universidade Federal do sul da Bahia (UFSB) busca implementar em nível de pós-graduação a vocação interdisciplinar da Instituição na qual se encontra sediado. Para melhor compreensão desta vocação, iremos situar a discussão em três tópicos.

A vocação deste Programa implica em alguns compromissos: novas perspectivas teórico-metodológicas, pluralidade metodológica e ênfase em novas relações entre ensino e pesquisa, sendo todos situados em âmbito interdisciplinar. Essas orientações estão ancoradas no forte comprometimento social com as populações do entorno da região sul da Bahia e com os desafios inerentes à inclusão de amplos segmentos da sociedade brasileira para uma vida mais inclusiva e democrática.

Do ponto de vista institucional, a proposta deste Programa insere-se no movimento de consolidação da presença da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), que tem por base uma nova perspectiva de educação superior estruturada em quatro grandes áreas do conhecimento – Humanidades, Ciências, Saúde e Artes -, a partir do modelo de ciclos de formação com modularidade progressiva. Tal modelo estrutura-se em cursos de formação geral em primeiro ciclo, pré-requisito para formação profissional de graduação (segundo ciclo) ou para formação em pós-graduação em ciências, humanidades ou artes (terceiro ciclo). O regime de ciclos abre uma possibilidade real de mudanças na preparação do profissional para o contexto contemporâneo, com a expectativa de fazê-lo participar da construção de um mundo onde prevaleçam princípios éticos de equidade e solidariedade.

Além disso, o regime de ciclos pode ampliar as possibilidades de contato do estudante com tecnologias avançadas de ensino-aprendizagem, promovendo um diálogo qualificado com outros centros de educação e pesquisa, mediante programas metapresenciais de educação continuada, que vêm sendo pouco explorados nas universidades brasileiras. O momento atual é de interação entre pessoas e instituições, estabelecendo parcerias no aprimoramento técnico e tecnológico.

O processo formativo do primeiro ciclo está sediado nos Institutos de Humanidades, Ciências e Artes (IHAC), presentes em cada um dos três campi da UFSB (sediados nos municípios de Itabuna, Porto Seguro e Teixeira de Freitas), que se orienta para a formação de cidadãos críticos, socialmente referenciados, capacitados a intervir na realidade e solucionar problemas, a partir de uma perspectiva interdisciplinar, mobilizando conhecimentos e atitudes que tornem as experiências vividas no dia-a-dia da prática técnica em estímulos para o aprendizado permanente. Os cursos de segundo ciclo, sediados nos Centros de Formação, são baseados em estratégias pedagógicas específicas, usando as melhores evidências disponíveis, mediante processos orientados por competências, habilidades e conteúdos, em ambientes reais de ensino-aprendizagem em equipe.

No Centro de Formação em Ciências Humanas e Sociais (CFCHS), sediado em Porto Seguro, os cursos de segundo ciclo a serem implementados inicialmente serão direito, administração, economia e antropologia, todos eles com perspectivas inovadoras em relação aos desenhos curriculares “tradicionais”. O curso de direito terá como foco a interculturalidade, os direitos coletivos, difusos e diferenciados. Caracteriza-se como “curso âncora” do CFCHS, com ampla demanda regional, mas que, até o momento, é oferecido apenas em instituições privadas. Desse fato decorre a necessidade e importância da disponibilização dessa formação diferenciada em instituições públicas, oferecendo profissionais qualificados para atender às demandas da região e em outras partes do país. O curso de administração terá ênfase em gestão pública e gestão social, visando preencher uma importante lacuna na formação dos profissionais egressos da graduação. A existência, portanto, dessa demanda de formação nas áreas e especialidades do curso ampliará o leque de possibilidades profissionais, considerando que existe atualmente uma forte presença de formações assemelhadas em instituições privadas, mas em sua maioria sob forma de EAD. O terceiro curso é o de economia, com foco em empreendedorismo, economia solidária e economia criativa. Assim como os dois cursos anteriores, também em economia observa-se a existência de demanda de formação na área e especialidades do curso a ser oferecido, combinado a uma baixa oferta da formação com as características definidas pelos focos do curso. Configura-se, assim, uma necessidade de disponibilização dessas formações diferenciadas em instituições públicas para atender aos segmentos de menor renda na região, assim como atrair candidatos de outras partes do estado da Bahia e do país. Vale ainda ressaltar que esses novos desenhos curriculares irão contribuir com o desenvolvimento do pensamento crítico e prático em direito, administração e economia, de maneira a contribuir com a formação de quadros especializados. O último curso a ser oferecido no CFCHS é o de antropologia, com ênfase em gestão de patrimônio histórico-cultural e relações interculturais. Diferentemente dos anteriores, os cursos de antropologia no Brasil ainda são incipientes, mas já configuram uma importante reformulação na trajetória típica de formação dos estudantes que compreendia, até bem pouco tempo, a graduação em ciências sociais e a formação em antropologia apenas no âmbito da pós-graduação (mestrado ou doutorado). O incremento dos cursos de antropologia em nível de graduação busca atender novos desafios teóricos e práticos decorrentes, em grande medida, da ampliação das demandas do mercado de trabalho desses profissionais junto às instituições estatais e ONGs. No âmbito da UFSB, as competências e habilidades desse novo profissional explicitam-se nas ênfases, acima anunciadas, e que se desdobram nas seguintes justificativas: i) existência de demanda de formação na área e especialidade do curso e de profissionais que possam lidar e gerir a diversidade cultural e o expressivo patrimônio social e cultural existente na região e no país; ii) formar especialistas que possam realizar laudos e perícias sociais, culturais, patrimoniais e mediação intercultural para atender às necessidades regionais e nacionais, representadas pelas demandas de instituições públicas, privadas, organizações civis etc. iii) inexistência de formações assemelhadas que possam dar conta das demandas específicas para esta formação; iv) contribuir com o pensamento crítico, prático e inovador, que venha a promover o desenvolvimento de tecnologias de gestão social e do patrimônio social e cultural.

Os cursos de segundo ciclo, com suas formações diferenciadas, relacionam-se estreitamente com esta Proposta de curso de terceiro ciclo, a ser também sediado no CFCHS. Os desenhos dos quatro cursos de segundo ciclo aliado às formações interdisciplinares do Bacharelado e da Licenciatura em Humanidades, (cursos sediados nos IHACs) possibilitam a constituição de um corpo docente do CFCHS com formação diversificada, atuando num ambiente de fomento às experimentações interdisciplinares no âmbito do ensino e pesquisa. A constituição do Programa de Pós-Graduação em Estado e Sociedade busca ampliar esse movimento para o ensino e pesquisa no terceiro ciclo, promovendo o conhecimento interdisciplinar no âmbito das Humanidades e Ciências Sociais Aplicadas. A interface entre essas duas grandes áreas do conhecimento apresenta dois eixos condutores: i) abordagens interdisciplinares que priorizem os novos enfoques em direito, administração, economia e nas ciências sociais, como indicados nos cursos de segundo ciclo, acima; e ii) um lugar privilegiado de problematização do Estado e das mediações entre Estado e Sociedade (políticas públicas, políticas sociais, participação social, novas cartografias sociais, movimentos sociais, processos de subjetivação, processos de emergência étnica, marcadores identitários etc.), promovendo novos desafios tanto teóricos como de comprometimento social dos desenhos curriculares diferenciados nas áreas de conhecimento dos cursos de segundo ciclo. Por fim, vale enfatizar que essas orientações se encontram alinhadas à filosofia mais ampla da UFSB, como fomento às abordagens interdisciplinares e inovações no modelo pedagógico (uso de tecnologias digitais, compromisso com o ensino fundamental, aprendizagem como compromisso contratual, foco na sustentabilidade, regime quadrimestral).

A Criação da UFSB insere-se no recente processo de desenvolvimento econômico com inclusão social, em curso no Brasil a partir de 2004, apesar dos efeitos inibidores das crises internacionais de 2009-2012. Nesse contexto, ressaltam os desafios decorrentes da massiva inclusão socioeconômica e do processo de mobilidade social resultante desse modelo brasileiro de desenvolvimento. Como resultado, registra-se um momento de forte expansão da educação superior, promovida mediante programas de incentivo individual e fomento institucional com renúncia fiscal beneficiando o setor privado (PROUNI) e, de certo modo em contrapartida, com a ampliação dos investimentos públicos na rede federal de educação superior (REUNI).

Esse processo, no entanto, encontra grandes desafios decorrentes especialmente da interiorização da educação pública no Brasil, cujas dificuldades para o funcionamento de um campus acabam sendo decisivas para a permanência dos estudantes, em relação a transporte deficiente, falta de alternativas de alimentação e moradia etc. O impacto social de uma instituição de ensino superior, portanto, será tanto mais bem sucedida quanto puder ampliar sua ressonância regional, com maior cobertura geopolítica e rapidez de resposta na formação de graduados e pós-graduados, visando provocar efetiva melhoria nos processos de desenvolvimento econômico, social e humano da Região.

Como a organização institucional da UFSB baseia-se em forte interligação entre níveis e ciclos de formação, a estrutura administrativa reflete essa interconexão estruturante da própria estrutura multicampi. Fortemente pautada na utilização de tecnologias digitais, a gestão da UFSB tem como base uma estrutura administrativa enxuta e descentralizada, autonomizando os campi, sem, entretanto, perder a articulação de gestão com os diversos setores da Administração Central. Ou seja, tanto no plano acadêmico quanto administrativo, combinam-se, de modo orgânico, a descentralização da gestão de rotina com a centralização dos processos de regulação, avaliação e controle de qualidade.

Para ampliar a oferta de vagas públicas no nível superior de formação, em paralelo e em sintonia com a melhoria dos indicadores pertinentes ao ensino básico, a UFSB oferece cobertura ampla e capilarizada em todo o território da Região Sul da Bahia através da Rede Anísio Teixeira de Colégios Universitários (CUNIs). A Rede Anísio Teixeira é formada por unidades implantadas em assentamentos, quilombos, aldeias indígenas e em localidades com mais de 20 mil habitantes e com mais de 300 egressos do ensino médio. Os CUNIs funcionam preferencialmente em turno noturno, em instalações da rede estadual de Ensino Médio. Para viabilizar uma integração pedagógica efetiva, com aulas, exposições e debates, transmitidos em tempo real e gravados em plataformas digitais, cada ponto da Rede CUNI conta com um pacote de equipamentos de tele-educação de última geração, conectado a uma rede digital de alta velocidade.

Para superação de importante lacuna no cenário educacional da Região e do Estado, a UFSB oferta ainda a opção de Licenciatura Interdisciplinar (LI) em primeiro ciclo. Para dar suporte a essas atividades, previstas no currículo do CUNI e articuladas com o EMP, durante horários extracurriculares, aproveitando sua conexão digital, os Colégios Universitários podem também operar como centros/pontos de cultura e de iniciação científica, artística e tecnológica. Desse modo, a Rede Anísio Teixeira pretende efetivamente contribuir para dinamizar cenários econômicos e culturais das cidades interioranas da região, sobretudo aquelas de menor porte.

Enfim, conforme apontado acima, o desenho institucional altamente capilarizado da UFSB busca uma forte aproximação com as comunidades do seu entorno, evidenciado sua vocação com o desenvolvimento regional em suas mais variadas dimensões. Esse compromisso se estende também à formação dos profissionais em nível de pós-graduação, possibilitando não apenas a ampliação das possibilidades de formação, mas principalmente o acesso a competências e habilidades críticas, focadas no desenvolvimento de novas tecnologias de gestão pública e social.

No que se refere à formação em nível de pós-graduação, a região é altamente carente de cursos, tanto em nível de mestrado como doutorado. Considerando especificamente a área das humanidades e ciências sociais aplicadas, os egressos dos Bacharelados e Licenciaturas interdisciplinares e dos cursos de 2º ciclo da UFSB, além dos graduados em instituições públicas e privadas da região poderão se beneficiar esta Pós-graduação. Vale ressaltar, ainda, o perfil inovador desta Proposta, que encontra similaridades em poucos Programas existentes no país. Os Programas de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana (UERJ – MD) e em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (UFRJ – MD) apresentam aspectos comuns com esta Proposta, mas ambos se localizam no Rio de Janeiro.

Em termos estritamente acadêmicos, o novo modelo proposto de educação em ciclos e de perspectiva interdisciplinar da UFSB responde ao desafio de formar profissionais alinhados com as novas demandas do mundo contemporâneo, bem como às especificidades culturais, sociais, artísticas e econômicas da Região Sul do Estado da Bahia, sem negligenciar o desenvolvimento nacional e planetário. Essa perspectiva se coaduna com as orientações mais gerais do perfil do profissional esperado, como descrito no Documento de Área (Área Interdisciplinar) em que a interdisciplinaridade possa contribuir para que “[…] o avanço das fronteiras da ciência e tecnologia, transfira métodos de uma área para outra, gerando novos conhecimentos ou disciplinas e faça surgir um novo profissional com um perfil distinto dos existentes, com formação básica sólida e integradora”. (2012, p. 12)

A UFSB anuncia sua razão de ser, alicerçada na solidariedade e no compartilhamento de conhecimentos, habilidades, desejos, impasses e utopias que, em suma, constituem a riqueza imaterial que chamamos de saberes ou espírito de uma época. Nessa perspectiva, pauta-se nos seguintes princípios político-institucionais: eficiência acadêmica, com uso otimizado de recursos públicos; compromisso inegociável com a sustentabilidade; ampliação do acesso à educação como forma de desenvolvimento social da região; flexibilidade e criatividade pedagógica, com diversidade metodológica e de áreas de formação; interface sistêmica com a Educação Básica; articulação interinstitucional na oferta de educação superior pública na região e promoção da mobilidade nacional e internacional de sua comunidade.

Alinhada à perspectiva interdisciplinar da UFSB, esta proposta de Pós-Graduação pretende redefinir o estreito âmbito em que o Estado e as mediações entre Estado e Sociedade costumam ser pensados e implementados, buscando novos diálogos com diferentes áreas do conhecimento de forma a superar os limites da especialização excessiva. A ênfase particularista e o formalismo teórico costumam ser entraves para novas experimentações interdisciplinares. É tarefa do ensino de pós-graduação enfrentar tal situação, buscando ambientes flexíveis e inovadores de ensino-aprendizagem, com estratégias investigativas que possam responder aos anseios e desafios da contemporaneidade. O ambiente experimentalista fomentado na UFSB possibilita a implementação de um Programa de Pós-Graduação com as orientações que estão delineadas nesta proposta: interdisciplinaridade, novas pedagogias e compromisso social.

 

 


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