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Pesquisador da UFSB participa de estudo internacional sobre casos atípicos de leishmaniose

20 de dezembro de 2016   //   Por:   //   Notícia

A investigação de casos atípicos de leishmaniose, e o teste de tratamentos mais eficazes, são temas abordados em artigo publicado por pesquisadores brasileiros e norte-americanos. O professor Luiz Henrique Guimarães, do Centro de Formação em Saúde da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), e o professor Albert Schriefer, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), lideraram pesquisa sobre o tema, e os resultados constam do artigo Atypical Manifestations of Cutaneous Leishmaniasis in a Region Endemic for Leishmania braziliensis: Clinical, Immunological and Parasitological Aspects na revista PLOS Neglected Tropical Diseases, lançada no início do mês. A investigação também foi notícia no site do jornal O Estado de São Paulo. O estudo foi financiado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Doenças Tropicais (INCT-DT).

Doença negligenciada

A leishmaniose é uma enfermidade tropical causada pelos protozoários do gênero Leishmania e provoca entre 700 mil e 1,2 milhão de casos por ano. Brasil, Colômbia, Peru, Costa Rica, Argélia, o norte do Sudão, Etiópia, Síria, Irã e Afeganistão concentram 75% da incidência. A leishmaniose cutânea (LC), forma prevalente da doença no Brasil, se caracteriza por feridas de vários tipos e formas, em geral em braços, pernas e rosto, e afeta seriamente a saúde e a aparência da pessoa.

Nesse sentido, o professor Luiz Henrique afirma que a leishmaniose apresenta um efeito socioeconômico e de qualidade de vida que a inclui no rol das doenças negligenciadas (consulte a lista, em inglês), conforme denominação proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “São doenças que são oriundas de especificidades da pobreza, e que mantêm a pobreza”, explica o pesquisador. Essas enfermidades causam o mal-estar orgânico e afetam a qualidade de vida e de movimentação do paciente na sociedade, impedindo que os indivíduos afetados reúnam condições para melhorar seu status socioeconômico e deixar a condição de pobreza. 

A pesquisa visa melhorar o atendimento às pessoas que contraem a doença, ainda mais no Brasil, um dos países com o maior número de casos notificados, cerca de 20 mil a 25 mil por ano. Desse total, a Bahia responde por 10% dos casos, a maioria na sua região Sul. É a área que mais notifica casos de leishmaniose no Brasil e em toda a América.

Linhagem diferente, tratamento diferente

A espécie Leishmania Viannia braziliensis é a responsável pela maior parte dos casos notificados no Brasil, e é bastante resistente ao antimônio, um medicamento com mais de 60 anos de uso no mercado. Esse é um fator relacionado ao grau de resistência do protozoário Leishmania ao tratamento comum, comenta o professor Luiz Henrique. Neste sentido, a indústria farmacêutica também é responsável, uma vez que não prioriza o desenvolvimento de novas drogas para essas enfermidades.

Os casos atípicos de leishmaniose cutânea (ACL, na sigla em inglês) chamaram a atenção dos pesquisadores, devido às manifestações fora dos padrões conhecidos. Além disso, como é de difícil diagnóstico, os pacientes com ACL tendiam a padecer por mais tempo e ter o seu quadro clínico piorado. O antimônio, medicamento padrão para tratar a LC, não é tão eficaz contra a variedade atípica, com cerca de 35% de cura. Essas informações sobre tratamentos e diagnósticos importam para a população também pelo fato de o Sistema Único de Saúde (SUS) ser obrigado por lei a prover atendimento contra a leishmaniose.

A pesquisa envolveu o acompanhamento de dois grupos de 51 pacientes cada, entre 2005 e 2012, na região de Corte de Pedra, na Bahia. O primeiro grupo manifestava sintomas da LC, e o segundo, da ACL. O tratamento preconizado pelo Ministério da Saúde, que recomenda o uso preferencial do antimônio, revelou-se incapaz de provocar boa resposta no segundo grupo. Assim, os pesquisadores testaram outros tratamentos. Um deles associa uma droga que mata o protozoário (o antimônio) e outra que regula o sistema imunológico da pessoa e melhora a cicatrização das feridas (pentoxifilina), e pode ser feito por profissional habilitado em postos de saúde. A outra linha de ação emprega a anfotericina B, usada em geral para combater infecção de fungos, com boa resposta no combate à doença. Porém, devido ao procedimento de aplicação e aos efeitos colaterais, é preciso que o paciente permaneça em ambiente hospitalar durante quase um dia útil para a hidratação e a aplicação do remédio, resultando em um tratamento mais custoso para o Estado e também para o indivíduo infectado, em geral oriundo de áreas rurais ou periféricas e com atividade econômica de baixa renda.

o professor Luiz Henrique Guimarães está em pé, sorrindo para a câmera, usando uma camisa polo vermelha e posa em frente a um arbusto florido.

A leishmaniose é considerada uma doença negligenciada, conforme nomenclatura proposta pela OMS, comenta o professor Luiz Henrique Guimarães, do Centro de Formação em Saúde da UFSB, por ser oriunda de “especificidades da pobreza” e por afetar a capacidade do paciente de sair daquela condição.

Um possível resultado futuro será o desenvolvimento de um kit de diagnóstico para esse fim. Mas os cientistas já sabem quais medicamentos provocam melhores efeitos contra os casos atípicos. Embora ainda não se tenha clareza sobre o que a determina, os cientistas concluíram que essa variante da doença ocorre na mesma área em que vivem pessoas infectadas pela LC. Outro achado é a informação de que os protozoários extraídos de lesões de LC e CAL possuem traços genéticos diferentes, indicando que linhagens específicas do parasita podem explicar as distintas manifestações da enfermidade. Os casos atípicos foram caracterizados pelo maior número de lesões, especialmente acima da cintura, na cabeça e no pescoço e pela resistência ao antimônio, droga usada no combate à LC. O estudo concluiu que variações genéticas no L.(V.) braziliensis o tornavam resistente ao medicamento, e identificou outros tratamentos já existentes que são eficazes contra essa variante do protozoário, como a droga anfotericina B ou a combinação de antimônio e pentoxifilina.

Alguns dos pontos a serem aprimorados na continuidade do estudo são as definições de doses padrão, com dosagens mínima e máxima, e o diagnóstico para optar pelos medicamentos conforme a linhagem.

Prevenção e atenção aos sintomas

O professor Luiz Henrique destaca que a ação preventiva contra o mosquito vetor do Leishmania é bastante difícil nas áreas urbanas, e quase impossível em ambiente rural. Por exemplo, não se pode usar uma aviação agrícola para pulverizar veneno contra a população de mosquito-palha (flebótomo) sem que isso provoque muitos efeitos ecológicos negativos.

Não é possível estabelecer uma associação entre o clima e os ciclos de alta da população do mosquito, explica o pesquisador da UFSB. Porém, há diversos fatores na região que são favoráveis para a reprodução: temperatura estável, umidade e áreas de mata. Além disso, o mosquito-palha, tal qual o mosquito Aedes Aegypti, vetor da dengue e da chikungunya, é um exemplo de inseto silvestre que está se adaptando aos ambientes urbanos.

Algumas medidas são possíveis para realizar o controle da população de mosquito-palha no entorno das casas:

  • Abrigos de animais (galinheiro, chiqueiro, etc.) devem ser posicionados o mais longe possível das residências. Isso porque o mosquito-palha ataca quaisquer tipos de animais, que passam a ser reservatórios do protozoário da leishmaniose. Como parte do nome científico do mosquito revela (do grego phlebós, flebo significa “veia” “artéria”; tomo indica “corte”), trata-se de um cortador de veias sem preconceito de espécies animais.
  • Uso de malha para telas e mosquiteiros de trama bem fina. Isso porque o mosquito-palha é menor que o mosquito comum e o da dengue, por exemplo. Sua picada em geral é dolorosa.
  • Limpeza do entorno das casas, retirando folhas, galhos e outros itens que possam reter umidade no solo. A fêmea do mosquito-palha coloca seus ovos no solo úmido.

Para proteção individual, quando possível:

  • Uso de repelente, devendo ser reaplicado a cada quatro horas
  • Uso de roupas compridas
  • Evitar exposição ao amanhecer e ao entardecer

Como identificar sinais de eventual infecção

  • A picada é dolorosa. Como o mosquito-palha voa baixo, é comum a picada ocorrer nas pernas; é possível que o mosquito pique em outras áreas do corpo, por exemplo quando a pessoa está deitada, dormindo.
  • No local da picada, surge uma elevação avermelhada, podendo ser seguida de uma íngua na base da coxa, nos casos de picada na perna. Essa íngua pode gerar falso diagnóstico
  • Feridas começam a surgir no local da picada, podendo assumir diversas formas.