Piotto - crédito Rachel Kramer

“Science” publica Pesquisa de docente da UFSB que mostra que preservação e regeneração de florestas secundárias pode mitigar os efeitos aquecimento global

13 de maio de 2016   //   Por:   //   Notícias

Artigo publicado na revista Science Advances, com participação de cientista da UFSB, traz dados sobre a captura e retenção de carbono pelas florestas secundárias na América Latina.

Ainda que você certamente não lembre de todas as vezes em que ouviu que é importante preservar as árvores, as chances são altas de que você lembre da essência da mensagem. Um artigo publicado na revista Science Advances nesta sexta-feira, 13, dá mais motivos para o esforço em proteger as florestas:  amenizar o aquecimento global e garantir a existência de recursos ambientais para uso sustentável, além de regular o ciclo da água e, com isso, os regimes de chuvas.

O artigo “Potencial de sequestro de carbono por regeneração de florestas secundárias nos trópicos latino-americanos” (adaptado do título original em inglês) expõe informações obtidas em um estudo internacional realizado por uma rede de 60 cientistas. Um dos autores é o professor Daniel Piotto, pesquisador e docente na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

Os autores estudaram as áreas com menos de mil metros de altitude cobertas por florestas secundárias recém regeneradas (menos de 20 anos de idade) e florestas “jovens” (entre 20 e 60 anos de idade) em 43 regiões da América Latina. O objetivo foi calcular o potencial de estoque de carbono nessas florestas, criando uma projeção de que essas matas sejam mantidas intactas nos próximos 40 anos, com previsões para cada país onde os dados de campo foram coletados. Além disso, foram feitas diferentes simulações de preservação e regeneração de florestas.

Quais os resultados?

Dentre os países estudados, o Brasil lidera em termos de potencial de estoque de carbono em florestas secundárias, detendo 71% do total estimado, seguido pelo México, Colômbia, Venezuela, Bolívia e Peru. Dez países concentram 95% do potencial estimado na região. Os dados se referem a áreas florestais e campos agrícolas abandonados, conforme medição em 2008.

A projeção do estudo considera a preservação e a regeneração dessas áreas nos próximos 40 anos, considerando o período de rápido crescimento das árvores mais jovens, quando elas retêm mais carbono em sua biomassa. Se essas florestas forem totalmente preservadas, o total de dióxido de carbono retirado da atmosfera em 2048 equivaleria a todas as emissões de gás carbônico, da queima de combustíveis fósseis aos processos industriais, em todos os países da América Latina e do Caribe de 1993 a 2014 – um total de 22 anos de lançamento massivo de carbono em mais de 30 países.

Outro destaque do artigo é que a simulação não envolve a adoção de replantio ou de conversão de áreas agrícolas. Os dados se referem exclusivamente às áreas florestais em processo de regeneração florestal existentes em 2008. Projetos de reflorestamento e conversão de áreas pastagem aumentariam ainda mais esse potencial de sequestro de carbono.

Os dados indicam que atividades sustentáveis, como o manejo florestal e a produção agroflorestal como complementos para a regeneração dessas matas. Porém, o estudo indica que reflorestar e proteger não compensam a emissão global de gases de efeito estufa. Ou seja, a atenção para com as florestas deve ser adotada junto com políticas e práticas de redução de emissões, com a meta de amenizar o impacto na elevação das temperaturas no planeta.   

Por que preservar interessa?

Essa pesquisa é relevante por indicar o status de diversas áreas de floresta, o papel delas em diversos processos ambientais de máximo interesse, bem como meios de baixo custo para a regeneração desses recursos ambientais.

A regeneração de florestas é considerada um meio eficaz de reduzir a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera. Basta lembrar das aulas de Biologia para entender o processo: durante o dia, os vegetais realizam a fotossíntese, processo de geração de energia para a vida da planta e durante o qual ocorre a captura do dióxido de carbono (resultado da queima de combustíveis fósseis e também, da nossa respiração) e liberação de oxigênio (o que os seres humanos respiram, bem como fazem outros animais).

Florestas jovens e em crescimento são responsáveis por um grande consumo de dióxido de carbono. Esse gás que é ao longo do tempo armazenado em forma de carbono em sua estrutura vegetal: raízes, folhas, galhos e tronco. Florestas mais antigas, nessa lógica, contém uma enorme quantidade de carbono; quando árvores dessa geração são derrubadas e queimadas, liberam esse elemento na atmosfera, novamente na forma de dióxido de carbono, contribuindo para o aquecimento global.

A regeneração florestal e a preservação das florestas ainda existentes já são reconhecidas pelo Acordo de Paris, enquanto fatores que contribuem para a retirada de carbono da atmosfera e amenizam o aquecimento global. Isso significa que os países podem incluir seus compromissos com a regeneração e manutenção de florestas como contribuições para efeitos de acordos internacionais sobre o clima, na mesma lista de metas de redução da emissão de gases que alteram o efeito estufa.

Além disso, áreas de floresta contribuem para a regulação do ciclo hidrológico. Isso implica, entre outros na regulação dos regimes de chuvas, o que interessa a todos, nos campos e nas cidades.

O artigo pode ser acessado neste link: http://advances.sciencemag.org/content/2/5/e1501639